domingo, 31 de janeiro de 2016

Roda de Passarinho na Caatinga (Capítulo XII)

Parque Nacional da Serra da Capivara

6 de dezembro de 2015, domingo. Saímos às 5 da matina em direção à Serra da Capivara, 500km de asfalto de primeira com a vegetação da Caatinga invadindo o acostamento em muitos pontos. Viajamos até encontrar Júlio Junior, nosso guia, no trevo do Tatú, em São Raimundo Nonato, como combinamos por telefone desde Teresina.

A primeira noite passamos na Pousada Zabelê e no dia seguinte rumamos para o Povoado do Sítio do Mocó. Fomos direto ao colégio idealizado pela dra. Niède Guidon e "abandonado" pela Prefeitura. Este colégio é conservado pela Fumdham juntamente com a proprietária da Cerâmica Serra da Capivara, para não ser invadido e depredado. Possui amplas salas de aula, cozinha, quadra de esportes e está sendo muito bem cuidado, servindo de pousada para pesquisadores além de guarita para uma das entradas do Parna.

O Parque premiado

O Parna Capivara é ganhador de vários títulos e prêmios, que pouca gente sabe. Em 1992, ganhou o título "Ação Verde" para o Plano de Manejo; em 1995, Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade - Gerenciamento e pesquisa de patrimônio natural e arqueológico; em 1997, Prêmio Itaú/UNICEF; em 2002, Prêmio Melhor Modelo de Preservação do Guia Quatro Rodas; em 2003, Declaração das Nações Unidas de Unidade de Conservação com melhor infra-estrutura da América Latina e, em 2007, o Prêmio Asa Branca - Reserva da Biosfera da Caatinga.

Fundação Museu do Homem Americano

Criada em 1986, em São Raimundo Nonato, pelos pesquisadores de uma cooperação científica binacional França–Brasil, entre eles Niède Guidon, a Fumdham tem parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade com a finalidade de aplicar o Plano de Manejo. Tem também a responsabilidade técnico-científica da Unidade de Conservação, pois assume sua defesa e manutenção.

Na cidade de São Raimundo Nonato, foi construído o Museu do Homem Americano, onde são expostos os resultados das pesquisas. Junto ao Museu, estão as reservas técnicas com as coleções de material arqueológico, paleontológico, zoológico, botânico, bem como os laboratórios e os serviços administrativos da instituição. Instalações de primeiro mundo que devem ser visitadas por todos que passam pelo Parna e pela  cidade!

Lasciate ogni speranza voi che entrate

"Deixai qualquer esperança, vós que entrais", verso da porta de entrada para o Inferno, na Divina Comédia de Dante, está reproduzido em letras enormes no portal de entrada para a propriedade de Niède Guidon.
A incansável pesquisadora que "viveu peregrinando de uma cidade para outra" em busca de verbas que mantenham pelo menos o Parque protegido, nos revelou que perdeu as esperanças, porém, a frase dantesca nos pareceu mais do que um presságio, é a senha para entrar neste mundo niedeano cujo portal está mais para Paraíso do que para Inferno.

Na casa de Niède Guidon

Niède Guidon nos recebeu, 7 de dezembro, em sua casa e, depois de trocarmos presentes, gravamos uma longa entrevista com esta senhora de 83 aninhos, que necessita de pulverizadores para manter o ar úmido e sua saúde e, nos revelou que quando usa água da torneira, toda sua casa se reveste com uma película de sal, mais uma prova de que um dia o sertão foi mar, brinca.

Nosso papo logo foi pro lado do passarinho, pois antes de mais nada nos levou ao seu quintal, um oásis repleto de aves de tudo quanto é espécie. Como tinha chovido há poucos dias, nos disse, muitas foram para outras bandas, como sempre, e ficaram os comensais chupins, galos-de-campina e pardais, que Niède trata sem distinção, com água e comida à vontade.

Parla, Niède!

Semana passada nós tinhamos aqui um gavião, moleques da cidade estavam jogando pedras e ele caiu no chão e eles apedrejando... um fiscal do ICMBio trouxe aqui e eu mandei fazer uma radiografia e tinham quebrado a perna dele de uma forma que nunca mais poderia usá-la. Ficou uns quinze dias, pois tenho como abrigar bichos feridos, mas eu vi que ele não andava direito e não iria ter condições de caçar, então mandei para Petrolina, onde a Univasf tem um Centro de Preservação da Fauna, pois na cidade não tem veterinário especializado em animais silvestres e no Parque Nacional, menos ainda... No mundo inteiro os Parques Nacionais têm veterinários especializados, aqui não tem nem veterinário!

Pássaros achados em escavação... acho que encontramos penas, porque é muito difícil, é um animal muito pequeno, fica muito amassado, não sei... temos vestígios de emas, animais maiores... Nós temos um especialista que é o Fábio Olmos, trabalhou sempre conosco, inclusive com esqueletos encontrados nas escavações.

Estudo arqueologia desde 1954, e na região iniciei minhas pesquisas em 1973. Eu era professora em Paris e vinha com meus alunos nas férias fazer trabalho de campo e depois, quando a Unesco declarou Patrimônio da Humanidade em razão dos resultados da pesquisa das datações e tudo, então o governo brasileiro me solicitou para fazer o projeto para a proteção, pois o governo é obrigado a proteger este patrimônio. 

Vim pra cá em 1992, fiz todo o projeto, levei 3 a 4 anos pra fazer tudo e até hoje não foi aplicado por falta de dinheiro. Quer dizer, foi parcialmente aplicado, nós conseguimos recursos do Banco Interamericano (BID), com Enrique Iglesias, que na ocasião era presidente e veio visitar o Parque e achou maravilhoso e fizeram uma doação de 1,5 milhões dólares (!) que nós usamos para começar a infraestrutura do Parque. 

Depois a França ajudou, a Itália ajudou, finalmente o Brasil também ajudou e conseguimos fazer uma infraestrutura boa para proteção aos sítios, aos animais e fizemos no entorno do Parque 28 guaritas a cada 10km, para proteger de caçadores, incêndios... qualquer coisa podiam chamar pelo rádio, então a situação era bem garantida. O que acontece é que agora, por falta de recursos só tem 12 guaritas com funcionários e no fim do mês vamos ter que despedir todo mundo, porque Brasília não manda mais dinheiro...

A situação é muito triste, dos 270 funcionários que nós tínhamos estamos reduzidos hoje a 80 e destes vamos despedir mais ou menos uns 60. Não tem mais condições! Toda a infraestrutura foi feita, temos 184 sítios preparados para visitação turística. Os patrimônios da humanidade no mundo inteiro recebem milhões de visitantes, mas acontece que eles têm aeroporto, têm hotéis e tudo, aqui o aeroporto foi criado em 97, foi liberada a primeira verba de 15 milhões e só foi inaugurado agora em outubro deste ano. Quer dizer, de 97 a 2015 para fazer um aeroporto!

O aeroporto foi criado como internacional pelo governo brasileiro. Havia companhias que queriam vir, inclusive a Emirates queria fazer uma linha para o Nordeste passando por aqui; o presidente da União de Bancos Suiços, queria construir um Hotel Seis Estrelas, mas quando viram o aeroporto, desistiram. E o aeroporto, sendo internacional, deveria ter uma pista que recebesse aviões grandes e fizeram uma pista menor, assim, não há como receber aviões internacionais. O que houve foi que a verba sumiu, como tudo o que é feito aqui no Brasil.

Então é uma sucessão de coisas, que realmente é como eu disse, desisto de tudo e volto para a França, o Brasil é um país onde só bandido dá certo (desabafa). Depois, toda esta infraestrutura vai ser perdida! No total a gente gastou uns 5 milhões de dólares para fazer tudo isso, 450km de estradas...

Quando eu comecei, na época que começava a seca, entre maio e junho, os animais migravam todos para a Serra das Confusões, porque lá tinha água o ano todo. Assim que caía a primeira chuva aqui eles voltavam, então a gente brincava: alguém manda um telegrama pra eles, porque como eles sabem para voltar imediatamente? Mas, aí, o que acontece, com todos estes programas do governo: minha casa/minha vida, assentamentos, etc., está cheio de gente no caminho entre os dois Parques. 

Quando fizemos o relatório para o Governo Federal, em 78, com uma missão interdisciplinar, com zoólogos, biólogos, botânicos, arqueólogos e tudo, fizemos um relatório mostrando a importância da região, que ainda estava completamente vazia, e sobretudo mostrando que era terreno público porque o que acontece é que os brancos que chegaram, mataram todos os índios e se instalaram, mas a maior parte deles nunca registrou a terra. Então, essas terras não têm dono. Agora, como nós fizemos isto em um relatório que foi para Brasília, famílias de políticos aqui do Piauí botaram no nome deles, fizeram grandes fazendas, de modo que hoje, na área entre a Capivara e as Confusões, os animais não podem mais migrar. Fizemos uma série de bebedouros dentro do Parque e, durante a seca a gente coloca comida, porque senão eles morrem. Então, conseguimos reconstituir a fauna, mas agora que vamos abandonar, vai sumir tudo...

Já passei aqui cinco anos sem chuva! Pois a seca está aumentando muito (...) o rio Piauí, que quando cheguei passava pela cidade, tinha uns 40 metros de largura, corria o ano todo, hoje está completamente morto! Jogam lixo, restos de construção... depois dizem que o homem é inteligente, não sei onde, pois acabaram com o planeta! Acho que a minha tese é a boa: Deus construiu o Universo, a Terra, colocou as plantas, os animais. Estava tudo lindo e maravilhoso e o Demônio furioso porque estava dando tudo muito certo, e ele disse: "Como é que eu acabo com isso? Daí teve uma idéia, criou o Homo sapiens e jogou aqui (risos).

Pronto, revelado o guardião do inferno dantesco de Niède, vamos em frente!


Uma senhora muito simpática, que nos recebeu com carinho...


...tem uma onça no quintal...


...e piscina para passarinho!




Preciosas obras para o acervo da Biblioteca da Roda de Passarinho


Crânio encontrado na Toca dos Coqueiros, exposto no Museu do Homem Americano, com c. de 9920 anos


As instalações do Museu são impressionantes, com visual clean e iluminação perfeita


Cada peça foi preparada e disposta com textos que te levam a outros artefatos...


...alguns remetem a objetos com perfil "inca", como este machado...


...e outros a jóias raras, como esta magnífica ponta de flecha esculpida em quartzo hialino.





Autorização do ICMBio e presente para a Roda de Passarinho da chefe do Parna, Lúcia Carvalho.


 O Colégio "abandonado" pela Prefeitura é hoje utilizado para abrigar pesquisadores.


Numa das entradas do Parna, a bela surpresa para o poster das Aves da Caatinga: Jacupemba (Penelope superciliaris)


Júlio Júnior, o guia que nos acompanhou por três dias...


...pelas veredas...


...e paisagens alucinantes da Serra da Capivara.


As estruturas do Parque Nacional da Capivara impressionam tanto pela engenharia...


...quanto pela conservação e acesso...


...às espetaculares inscrições rupestres...


...que receberam tratamento especial...


...e podem ser observadas bem de perto.


Impossível não ficar extasiado pela arte impressa há milênios...


... e não imaginar instrumentos, redes, aparelhos, enfim...


...idealizados por uma civilização da qual só restam símbolos...


...gravados em centenas de sítios no Parque Nacional da Serra da Capivara.


A habilidade do Homo sapiens replica...



...e conserva a identidade de um povo...


...para que você adquira belas peças feitas por artesãos da comunidade.


Serra das Confusões

Na quinta-feira, 10 de dezembro, seguimos para o vizinho do Capivara, o Parque Nacional da Serra das Confusões. Guiados pelo Néri, conhecemos paisagens, lapas e grutas sensacionais desta Unidade de Conservação de quase 824.000 ha que protege alguns animais ameaçados de extinção: Onça-pintada (Panthera onca), Onça-parda (Puma concolor), Tatu-canastra (Priodontes maximus), Tatu-bola (Tolypeutes tricinctus), Jacucaca (Penelope jacucaca) e a Araponga-de-barbela (Procnias averano). 

Conta o avô de Néri, que sempre viveu ali, que o nome Serra das Confusões vem da dificuldade em achar o caminho nas diversas trilhas que deveriam ser vencidas com cargueiros de mulas, quando as luzes refletiam nas pedras e confundiam até mesmo os experientes viajantes daquelas regiões.


Fomos muito bem recebidos no Parna Serra das Confusões...


...bem servido de estradas...


...que levam a paisagens estonteantes.


Deve-se ter muito cuidado onde pisar, pois as trilhas estão coalhadas de tocandiras! Na minha mão, esturricada.


Mas também é preciso ficar atento aos movimentos das sombras, pois a qualquer momento você pode ser premiado...


...com um casal de Chupa-dente-de-capuz (Conopophaga roberti)...


...ou um belíssimo Torom-do-nordeste (Hylopezus ochroleucus).


11 de dezembro de 2015, contemplando esta paisagem, comemoramos 44 anos de Giovanka


No próximo capítulo, entramos novamente na Bahia por Senhor do Bonfim e Chapada Diamantina. Continue com a gente!













Um comentário:

  1. Niede é uma guerreira valente e fez desta paisagem mágica um parque nacional digno de sua criadora. Amo e respeito a Niede e lhe desejo vida longa e saudável.
    Todos temos de lhe agradecer!!! SONIA WIEDMANN

    ResponderExcluir